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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Partiu


Dois anos e alguns meses atrás, eu estava na cidadezinha no interior, arrumando as malas para voltar pra capital. Feliz da vida por ter conseguido a chance de trabalhar num lugar legal, por poder oferecer tudo que São Paulo tem para oferecer para a minha filha e, como não podia deixar de ser, chegando pertinho do meu sonho. Um sonho que eu não tinha contado para ninguém que eu tinha. Nem para mim mesma.

O emprego não era assim tão legal e o sonho virou raiva, depois mágoa, depois choro, depois nada. E depois passou. No fim das contas, não era mesmo um sonho bom de ser sonhado. De toda forma,  deixou as devidas marcas.

E dois anos é mesmo pouco tempo, mas eu posso dizer que vivi uns quinze anos dentro desses dois.

Fiquei presa no trânsito e me perdi. Comi em bons restaurantes e assisti ótimos espetáculos. Passeei no shopping, no parque, na rua. Andei de bicicleta e de metrô. Vi manifestações, depredações, injustiça, violência, desigualdade. Me indignei por 20 centavos. Fiquei sem sinal de celular, sem internet, sem tv. E depois, tive tudo que eu não tive. De novo e de novo. Amo essa cidade e não vou deixar de amar.

Hoje, estou novamente colocando em caixas minhas roupas, minhas louças, minha vida. E volto para o interior. Voltou pra onde eu ainda não fui. Outro interior, outro emprego legal, outra casa, outra escola legal para minha filha. Sem sonhos, porque destes eu já desisti. Pelo menos daquele "tipo" de sonho.

Realizada.
E feliz.
Certamente como sempre estive em cada mudança e ao mesmo tempo como nunca.

Saio com a sensação boa de que é mesmo a hora de ir. Que vou na hora certa. Que não estou deixando a minha ansiedade falar mais alto. Que meu dever foi cumprido, e muito bem cumprido. Que conquistei meu espaço. Que cresci. Que fiz a diferença. E que vou novamente fazer a diferença agora em outro lugar. E que aqui, por maior que seja, ficou pequeno para mim.

Sem incertezas. Sem pressa. Sem ter que morar no apartamento que estava disponível. Sem ter que me virar para fazer dar certo. Porque desta vez já está tudo certo antes mesmo de eu ir.

E eu me sinto tão bem...

Um mundo de coisas pra agradecer, um mundo de coisas para esquecer, um mundo de coisas para levar comigo, um mundo de coisas pra deixar, um mundo de aprendizado, um mundo de lágrimas choradas que ficarão no apartamento vazio. Essas não vão comigo.

Mas tem muita gente. E gente que vai comigo. Eu deveria nominar cada uma delas aqui, mas é impossível. Porque muita gente me fez crescer. Fez parte dos meus quinze anos em dois.

Gente que abriu a porta e que permitiu que eu e minha filha entrássemos não apenas nas suas casas, mas nas suas famílias (Ana e Fátima, essas são vocês!).
Gente que trabalhou comigo e me aguentou tantos dias, de bom e de mau humor, sorrindo e chorando, tranquila e brava. E chata. Sempre chata. Eu sei que eu sou chata... nunca neguei isso.
Gente que compartilhou momentos de crescimento da vida escolar da minha filha com todas as  angústias e medos que o crescimento dos filhos traz.
Gente que me ensinou e gente a quem eu ensinei.
Gente que foi mau caráter, e que, ainda assim, mesmo sem saber, fez de mim uma pessoa melhor.
Gente que não estava perto fisicamente todos os dias, mas que eu sempre soube que estava ali.

E teve gente que me machucou. De uma forma que eu nem sabia que poderia ainda ser machucada. Que me fez chorar tanto que eu achei que fosse ficar seca. Que me fez duvidar. E que me fez perder a crença em algo que eu, pela última vez, tinha me dado a chance de acreditar. 

Sim. Esse era o sonho que virou mágoa, que virou raiva, que virou bla bla bla bla.

Eu optei por ficar perto do fogo, sabendo que poderia me queimar. E me queimei. Levo agora a pele deformada pela cicatriz que não sai mais, mas que me lembra que apesar de tanta dor, eu sobrevivi.

É, eu sei... mi mi mi. Sou dessas.

Pra algumas pessoas, eu estou indo embora. Pra outras, estou apenas indo ali. Mas continuarei sempre aqui. 

É a minha vez, e a minha vida vai começar de novo, como já começou tantas vezes. 

Agora eu já posso parar de contar o dinheiro e começar a contar as estrelas. Porque é verdadeiro o verso da música que diz que a gente só odeia a estrada quando sente saudade de casa. E aquilo que sempre me disseram que era meu e que estava guardado para mim, eu encontrei.

Estou indo para casa.

Encontrei a paz de espírito que eu nem saiba que era tão gratificante. Encontrei a tranquilidade que eu nem sabia que não tinha. E encontrei a mim mesma exatamente no mesmo momento em que eu descobri que era isso que eu estava procurando.

Completa.

Obrigada, São Paulo. Voltarei sempre.

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